2007-08-12

Torga



«A princípio, realmente, ninguém o viera perturbar naquele refúgio murado e amplo, onde as notas, como ondas numa praia imensa, se estendiam pesadas e vagarosas. Uma tarde, porém, a sombra esguia da moça transpôs imperceptivelmente a grande porta. Viu-a atravessar sem ruído o transepto, e ir ajoelhar-se diante do altar da Virgem. Sem saber porquê aflorou-lhe aos dedos o Stabat Mater. O som ergueu-se, encheu o silêncio, e o tempo deixou de ter medida. Quando ela se levantou e saiu, sem erguer sequer os olhos para o coro, era noite fechada. Desencantado, desceu também dos píncaros do inefável, onde pairava, e pôs-se a caminhar no duro chão da realidade. Na rua, pouco depois, a tropeçar nas saliências do empedrado, a vida pesava-lhe nos ombros muitos quilos a mais.


No dia seguinte, à mesma hora, repetiu-se a aparição. Cuidou que o coração lhe saltava do peito. E a emoção que sentira no dia anterior nasceu de novo e animou-lhe as mãos magras e nervosas. Tocou. Não o Stabat Mater, angustiado. Desta vez foi um Salmo, brando como uma carícia a um filho. Uma ternura que a si próprio se dava, não sabia porque dor futura. E aquele afago fazia-lhe bem.»


Do conto Música do livro Rua de Miguel Torga (1907 - 1995). Uma simples homenagem ao 'rude sensível' no dia do seu centenário.




Stabat Mater - Giovanni Pergolesi (1710 - 1736)

1 comentário:

Terpsichore disse...

Ccaro Goldluc
Obrigada pelo belo texto de Torga, e também pelo interessante postal anterior.
Cumprimentos