2008-07-05

Canção do Lamento


Nesta peça de concurso Gustav Mahler (1860 – 1911) descobre-se. Tem então 21 anos e procura afincadamente a sua voz. Os especialistas vêem aqui, sobretudo no início desta primeira parte (depois segunda, uma vez que a primeira, Wäldemärchen, foi retirada pelo próprio compositor por considerá-la redundante) e no final, o fundamental do Mahler histórico.
O compositor que alguns consideram como elemento chave do modernismo inicial, foi apanhado no fogo cruzado de uma guerra que só colateralmente lhe dizia respeito. Entre Wagner e Brahms, o jovem compositor tentava afirmar-se. Vítima do contexto vienense da época, como muito bem o nosso amigo Milton Ribeiro, do PQPBach, essa fantástica "enciclopédia da cena musical erudita" (e em português!!), aqui coloca, Mahler é preterido, em função dos factos estéticos do momento, mas inicia deste modo, com Das Klagende Lied, um percurso genial. Felizmente para as gerações vindouras, herdeiros e fruidores do seu brilhantismo, uma pequena contrariedade em nada diminuiu a vontade do músico. Hoje seria diferente?




2008-07-03

Oh, Luz Originária!

De Gustav Mahler (1860 – 1911) muito se disse e muito mais se escreveu. Há quem considere difícil. Há quem considere fundamental. Há quem ouça. Quem ouça sempre. Quem só ouça. Mahler nunca é demais.

Não há história humana como a aberta pela música de Mahler. Parece que em cada compasso há um marco do regresso a si da humanidade.
“Urlicht”, da fantástica Sinfonia nº 2, é um daqueles momentos em que o Homem se vê a regressar a si e se enche desta luz “divina” originária. Divindade tão humana na recusa da vontade: Luz da liberdade definitiva e essencial. “Oh, Rosa Vermelha”, que és sem porquê!

Esta interpretação pode até nem ser tecnicamente a mais conseguida. Tem, no entanto, o valor da própria história da música: o inqualificável Glenn Gould a dirigir a poderosa Maureen Forrester.
Aqui e aqui ficam os links para a extraordinária interpretação de Anne Sofie von Otter, supremamente conduzida por Simon Rattle, e para a substancial interpretação de Thomas Hampson que, no seu contexto, me agrada bastante.

Não há motivo suficientemente significativo para celebrar Mahler senão aquele em que ele é dado a ouvir. E isto é sempre!

2008-06-28

Regresso (???) ....e descoberta


Francesco Antonio Bonporti (1672 - 1749)

Coloca-se a hipótese de ter sido Arcangelo Corelli a contribuir decisivamente para a paixão pelo violino deste humanista filósofo «amador de música», como gostava de se dizer. Para mim, que invisto parte interessante das minhas emoções nesta idílica idade do ouro do Barocco, foi uma gratíssima descoberta. Entre a vocação de "Il Prete Rosso" e a devoção do verdadeiro «patriarca» do barroco que foi J.S. Bach, este igualmente "homem da Igreja" de Trento e Pádua quase passava em silêncio pela história da música. Não fosse a 'transcrição' de parte da sua Invenzione Decima in E, levada a cabo pelo grande Johann Sebastian e talvez não fosse possível fruir desta espantosa arte da harmonia e da muito cativante e viva arte da melodia. O hábito, pelos vistos usual à época, do apossamento de obras de outros autores (sem pagar direitos) retribui, afinal, em grandes benefícios. Outros tempos!!

Bonporti, agora descoberto graças a Bach, merece ser ouvido com o coração. Infelizmente no Youtube apenas esta Sonata a Tre nº 8 o apresenta e representa. Mas dele há muito mais e melhor para ouvir. Por exemplo as Invenzioni a Violino Solo op.X. Muito bom!



2008-03-27

Alma

"...Rapo da navalha, e vá de tirar forra! Pois querem saber? O sujeito que eu tinha em cima de mim era o meu compadre!...Oito anos de cadeia!...Não está certo!...Então alguém é capaz de acreditar que eu ia matar o meu compadre se soubesse que era ele?...

- O João Rodrigo foi buscar-lhes vinho e comida. Depois de fartos, cantando pareciam outros. A impressão deixada pela narrativa daquelas mortes passou-nos. No escuro das grades, a cantiga abria-se pura e melodiosa. Breve juntámos as nossas vozes às deles. Deixou de haver ali criminosos e não criminosos. Apenas homens que erguiam para a noite uma canção de amor."

Manuel da Fonseca; À Lareira, nos Fundos da Casa onde o Retorta tem o Café.

2008-03-01

'Orage'

Há momentos de tormenta na vida de cada um. Há vidas atormentadas e, a essas, só por ironia chamaremos vidas. Há sempre quem transforme em vida as tormentas de cada dia. Algumas tormentas metafísicas, fundamentais, sem rosto e sem corpo. Essas deixa-as viver a música genial. E sublima-as. Soube-o bem Liszt, pássaro sombrio que se moveu no mundo atrás de alvíssimas mãos, para toda a graça de todas as nossas desgraças. Alfred Brendel, mestre impressionante do feliz decalque artístico, diz Liszt no meio da tormenta, como só os génios o sabem dizer. Repousemos! Retomemos a paz dos dias, pela graça deste bendito Brendel!


2008-02-07

Colhe o dia, porque és ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos.
Colhe o dia, porque és ele.
Ricardo Reis

2007-12-22

Obra-prima

«A obra-prima é uma sinfonia tocada nos nossos melhores sentimentos. Ao toque mágico do belo as cordas mágicas do nosso ser despertam, vibramos e alegramo-nos em resposta à sua chamada. A mente fala à mente. Escutamos o que não foi dito, fitamos o que não foi visto. (…) Memórias há muito esquecidas regressam a nós com novo significado. Esperanças sufocadas pelo medo, desejos que não ousamos reconhecer, avançam em nova glória. A nossa mente é a tela onde os artistas colocam a sua cor; os seus pigmentos são as nossas emoções; o seu «chiaroscuro» a luz da alegria, a sombra da tristeza. A obra-prima é de nós próprios tal como nós somos da obra-prima.
(…)
Para compreender uma obra-prima tendes de rebaixar-vos perante ela e aguardar com respiração contida a menor das suas elocuções.»

Kakuzo Okakura; O Livro do Chá




«Coro:

Muchas cosas hay portentosas, pero ninguna tan portentosa como el hombre; él, que ayudado por el noto tempestuoso llega hasta el otro extreme de la espumosa mar, atravesándola a pesar de las olas que rugen, descomunales; él que fatiga la sublimísima divina tierra, inconsumible, inagotable, con el ir y venir del arado, año tras año, recorriéndola con sus mulas.`Con sus trampas captura a la tribu de los pájaros incapaces de pensar y al pueblo de los animales salvajes y a los peces que viven en el mar, en las mallas de sus trenzadas redes, el ingenioso hombre que con su ingenio domina al salvaje animal montaraz; capaz de uncir con un yugo que su cuello por ambos lados sujete al caballo de poblada crin y al toro también infatigable de la sierra; y la palabra por si mismo ha aprendido y el pensamiento, rápido como el viento, y el carácter que regula la vida en sociedad, y a huir de la intemperie desapacible bajo los dardos de la nieve y de la lluvia: recursos tiene para todo, y, sin recursos, en nada se aventura hacia el futuro; solo la muerte no ha conseguido evitar, pero si se ha agenciado formas de eludir las enfermedades inevitables. Referente a la sabia inventiva, ha logrado conocimientos técnicos más allá de lo esperable y a veces los encamina hacia el mal, otras veces hacia el bien. Si cumple los usos locales y la justicia por divinos juramentos confirmada, a la cima llega de la ciudadanía; si, atrevido, del crimen hace su compañía, sin ciudad queda: ni se siente en mi mesa ni tenga pensamientos iguales a los míos, quien tal haga.»
Sófocles; Antígona